Poesias de Interior
Empenhar as retinas na escarpa do mundo.
Vasco Gato, in Rusga
Vivemos ou vivemo-nos caminhando numa aparente planície. Para uns, o caminho reto pode durar um longo tempo, para outros muito menos. Outros ainda há que conservam essa visão de infinito diante dos olhos como um “era uma vez” infantil ou uma ilusão dos ingénuos. A verdade é que, cedo ou tarde, a vida, nalgum momento, nos faz estremecer, criando em nós uma brecha, uma falha ontológica que nos divide entre o solo seguro percorrido e o escuro do abismo desconhecido. A deceção. A limitação. A nobreza. O amor. O sonho. A injustiça. A inquietude. A perda de sentido. A solidão. O luto. A verdade. A beleza. A doença. A morte. Enfim, os nomes possíveis para os terramotos da Alma são vários … assim como as formas de ser e estar diante dessa escarpa do nosso mundo interior.
Há quem passe uma vida inteira a evitar esse lugar dentro de si. Um lugar proibido e incógnito. Há quem tente construir uma ligação com uma extremidade irreal de forma a não cair nesse buraco negro do ser – mas, a ponte é frágil para um abismo tão profundo. Diante dessa encosta íngreme, a nossa vertigem de autoaniquilação só se supera comprometendo a nossa atenção. As nossas retinas são a geografia humana que nos torna capazes de ser sensíveis à luz – as retinas adoecidas tornam-nos cegos. São as nossas retinas, por outras palavras, a nossa coragem de (nos) olhar(mos), – etimologicamente, retina vem de “rede” – que nos servem de trampolim quando decidimos dar o salto para dentro do que é longamente extinto de luzência. Sem esse compromisso de olhar de verdade, o negro irá parecer-nos uma mancha informe de Nada, um deserto de noite, estéril, estéril, estéril.
O exercício de interioridade não deixa de ser um exercício de exterioridade também. O que se passa no nosso mundo interior replica-se nas escarpas sucessivas do mundo exterior, estas abertas por grotescos terramotos (des)humanos, a guerra, a fome, o abuso de poder, o racismo, o ódio, o extremismo, … Afinal, a forma como me amo, como cuido dos meus abismos, será a forma de amar o Outro, os abismos do Outro, da Humanidade inteira. O apelo é grande!, ora Cecília Meireles, “Já não se morre de velhice/nem de acidente nem de doença/mas, Senhor, só de indiferença.” E a indiferença é simplesmente outra forma de dizer cegueira.
…
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Quando abeiro a margem do fosso abissal do mundo,
a vertigem do infinito breu, altera para sempre
a visão do atro abismo do meu eu.
Manuela Vidigal Bertão
