De perto ninguém é normal
Conhecer profundamente alguém é um ato inacabado de amor e de loucura – quanto mais cortinas abrimos à nudez do outro, mais a sua natureza poliédrica se torna nítida, mordaz e perigosa. Ao jeito de Simão Bacamarte, de perto ninguém é normal[1]. Assim, a normalidade é o dialeto inanimado de quem não sabe perder-se na escarpa de outros mundos. Por outro lado, somos tanto mais inteiros quanto maiores são as margens que rasgamos dentro de nós. E quem não se perde nas bordas do amor, acaba por adoecer nas retinas da loucura. O coração fica cego.
A melhor forma de arredondar os afetos passa por escolhermos ser peregrinos de nós mesmos. Atravessar os cumes e vales das histórias a empenhar as retinas dentro do mistério. Caminhar a passo firme com a humildade de quem não teme o escrutínio dos abismos a desenhar mosaicos e desfazer nós na poeira dos dias. Dentro dos nós há lanças e flechas, batalhas sangrentas e ceifeiras a fazer pão. Dentro de nós a coerência e o preconceito são os aposentos onde repousa quem já cegou os pés.
Aprendemos a caminhar pela vida numa dialética binária mas só é possível enraizar o corpo na alma do mundo quando descobrimos o aroma do terceiro valor. Há o verdadeiro, o falso, e um terceiro valor de verdade. Nos asilos existem paredes que separam o lado de dentro do lado de fora. E por isso os asilos mentem. A verdade é a escarpa que aproxima as retinas do bem e do mal, de mim e do outro, do que sei e daquilo que em mim desconheço. A verdade é o aroma a urze debaixo do sim e do não. Queremos ser livres?
Precisamos de adoecer para nos podermos curar. É preciso ficar triste para aprender a escutar a dor que limpa os olhos do coração. Na escarpa da ferida há uma beleza leve onde crescem flores selvagens e a terra se agiganta dentro do bem e do belo. O lugar de sermos pessoas está vedado a quem desconhece a cor das cicatrizes. Porque a magia que nos faz feiticeiros do amor é mais forte no rasto frio do sangue e do sal. Estamos sempre, lentamente, a aprender a coragem de sermos livres e inteiros.
Quando sou livre atravesso as pontes erguidas entre o meu corpo e o corpo do mundo; lanço-me trémula na escarpa interior do que sou e derramo em mim borboletas atentas à profundidade das camadas do tempo. Inteira sou as retinas empenhadas na escarpa da dor; livre sou a alma que grita no alto da montanha. Quando sonho sou a raiz que me segura firme na metamorfose da vida.

[1] O Alienista, Machado de Assis.
Célia Soares
