Sobre as mãos, os pés, e a liberdade
As nossas mãos, e os nossos pés, prolongam o corpo no espaço de outros corpos, no espaço do mundo. Porque nos abrem, simultaneamente, ao concreto e ao subjetivo, as mãos e os pés devolvem-nos o lugar da terra e o lugar do silêncio. As mãos e os pés conhecem melhor os lugares da vida, das vidas, são maiores do que a nossa cabeça.
Quando conduzimos a alta velocidade, as paisagens aparecem-nos todas iguais. A diversidade apaga-se nos nossos olhos. Da mesma forma, quando vivemos depressa demais, a diversidade das vidas alheias apaga-se, a nossa própria história repete-se sílaba após sílaba, o futuro esmaga-se nos versos aos quais já sabíamos a cor. É mais fácil criar a partir do vazio, do aborrecimento, do tédio, do desconforto, da dor. As mãos e os pés são a alavanca que vira as certezas do avesso, abrindo-se à dúvida, à diferença, ao conflito – como uma linha que se atravessa na ponta de uma agulha.
A forma como caminhamos, os desenhos que trazemos nas mãos, são cicatrizes daquilo que somos e vivemos. Do quanto sonhamos ou choramos dentro da dor. Por vezes, dizem mais sobre nós próprios do que as nossas palavras, o rosto ou até o olhar. Com as mãos e com os pés dialogamos com o mundo, e com os mundos dentro dos nós. Construímos panos de sentido ao tricotar os fragmentos que flutuam dentro da memória.
Em contraste com as tradições ancestrais que fomentavam a prática da imposição das mãos, o trabalho com mudras e danças, a sabedoria do corpo, hoje somos maioritariamente uma sociedade sentada, inspirada nos pilares frágeis da velocidade e do conforto. Mas a liberdade não pode encerrar-se nas palavras ditas, nem ignorar que tornar as coisas menos cómodas, mais lentas e complexas, nos acrescenta tanto em tamanho como em comunidade. São as mãos e os pés que nos permitem a lentidão da vida, a subjetividade, os aromas e a respiração dos sentidos, o amor. As mãos e os pés acrescentam a liberdade.
Desenrolar um dedo após o outro como quem desenlaça as dores guardadas à espera do tempo; senti-las e chorá-las e amá-las; pôr um pé à frente do outro, desafiar os caminhos e os destinos, para onde vou? porque sofri? onde quero ir?
Caminhar, tricotar, tocar um instrumento, pintar, escrever, ler com as mãos, – tudo isto aumenta o espaço do tempo e, dessa forma, o lugar da liberdade. As mãos e os pés aproximam o corpo da alma, fazem-nos mais inteiros, mais humanos, mais livres.

Para ler com as mãos e com os pés:
- O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han
- As Oito Montanhas, Paolo Cognetti
- Where I Lived, and What I Lived For? Henry David Thoreau
- A Arte de Caminhar, Erling Cagge
